Danilo levava uma vida estável. 10 anos casado e uma amante-coroa no último ano. De repente, perde a mulher, a amante e a faxineira no mesmo dia em que completa 40 anos. Descobre, claro, a tal crise dos 40. Volta a freqüentar a noite. Conhece mulheres estranhas em festas estranhas. Ao mesmo tempo, começa a ter divertidas reflexões sobre seu passado. Era só o começo de uma vida que muda...

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O Ponto de Encontro dos Blogueiros do Brasil


Domingo, Julho 12, 2009  

Três quarentões e uma noite fria de sábado

Acabei ontem no bar da outra noite. Será que vai ser assim o resto da minha vida? Tenho medo de, rápido demais, estar me tornando parte do cenário e dos personagens fixos daquele pub, como todas aquelas quarentonas vestidas de adolescentes. Fazia já uns 40 minutos que estava encostado no balcão, engolindo minhas cervejas. Olhava ao redor, observando e ouvindo aquela diversidade de homens e mulheres ao meu redor, quase todos buscando companhia. Por algumas horas, uma noite, uma vida.
"Eu não quero mais saber de mulher na minha casa", disse um quarentão careca, de cabeça raspada, e camiseta preta que estava em pé ao meu lado.
"Nem pra transar?", respondeu, perguntando, o outro, da mesma idade, camisa branca social amassada, calça de sarja bege (como detesto a cor bege). Careca, igualmente. Mas não tinha cabeça raspada. Era careca apenas na parte central-superior da sua cabeça enorme e branca. Ao redor das orelhas e na parte traseira da cabeça, vigorosos fios negros compunham seu visual acomodado, envelhecido talvez.
"Vocês querem alguma coisa?". Era uma menina, morena, longos cabelos negros. Lábios carnudos, como querem ter hoje todas as estrelas, sensuais. Calça jeans barata, bem justa, marcava sua pequena calcinha, sexy. Camiseta branca ainda mais apertada, com o nome do bar na frente, em vermelho. Sugestivo. Salto alto, elegante, equilibrava-se neles, com uma dificuldade quase comovente, para andar pelo bar com sua bandeja cheia de bebidas. Sorria cordialmente, comercialmente. O quarentão mais careca sorriu sem graça de volta, pouco à vontade. Ela os interrompeu no momento que ele contava ao amigo formal, com detalhes desconcertantes, sua última transa com uma gata de 25 anos que havia conhecido num bar. Ele olhou para o seu copo, quase vazio.
"Quer pedir outra já?", disse para o amigo da camisa social.
O todo-careca encarava a garçonete, sem disfarçar a cara de cafajeste. Na verdade, esforçava-se a cada segundo para parecer um cafajeste - e não um homem de 43 anos, divorciado, solitário na maior parte do tempo, que tinha de acordar cedo na manhã do dia seguinte para buscar a filha quase adolescente na casa da ex-mulher e levá-la à aula de natação.
"Mais duas cervejas, lindinha", decretou ele, se achando. Ela virou-se e caminhou, lentamente, com a competência que só uma mulher com um corpo maravilhoso sobre um par de sapatos altos consegue ter. Caminhou em direção à geladeira, sob o olhar de três quarentões. Seu andar durou pouco, foram segundos, três ou quatro passos, o suficiente para olharmos a sua bunda. Sem compromisso. Coisa de homem, coisa que mulher nenhuma, em tempo algum, vai conseguir entender. Não precisamos desejar uma mulher para virar a cabeça e analisar (esta é a palavra correta: analisar) seu traseiro. É instintivo. Aliás, bela bunda tinha a lindinha. Pequena, mas eficiente. Claro que, no caso dela, nós três a olhávamos com desejo. Não estávamos observando. Estávamos fantasiando, imaginando seu traseiro nu.
"Depende." Ele, o moderno, outra vez, respondendo a pergunta do amigo. "Mas prefiro um motel. Quando acaba é só levantar e ir embora, não tem que agüentar mulher-carente querendo dormir abraçada, te convidando para tomar café da manhã ou querendo dar outra depois que estou sóbrio".
Chegaram as cervejas.
"Por favor." Eu, chamando a lindinha.
"Outra cerveja." Pedi.
Quando cheguei, os dois quarentões já estavam por lá. Falando sobre suas vidas. Como casaram e tiveram filhos. Como um deles, o moderno, separou-se e como lida com isso. Como o outro, o sério, continua casado, embora tenha desejos cada vez mais fortes por outras mulheres. Falavam das mulheres, das suas e das demais, discutiam como suas vidas ficaram tão diferentes, divergentes. Eles que se conhecem desde o colégio e iniciaram sua vida sexual juntos, em alguma zona que nem existe mais há anos.
O bar estava cheio. Gente de todo tipo. Esta é uma das características que mais gosto nos pubs, depois das cervejas e chopes de várias nacionalidades. Gente jovem demais, gente mais velha, gente muito mais velha. Estão todos lá, dividindo o mesmo espaço, curtindo o mesmo rock flash-back, bebendo as mesmas bebidas. Muitas vezes dividindo os mesmos beijos. Sem constrangimentos. Tiozinhos, tigrões, gatinhas, patricinhas, mauricinhos, modernos, gays (uns dois ou três assumidos, que contei em 15 minutos, incluindo um loiro-magrelo que insistiu em me encarar por uns 10 minutos) e suspeitos (outro punhado de homens de várias idades sem uma preferência sexual muito clara). Tudo ali. Disponível. Em oferta. Como naqueles grandes hipermercados, nos quais você pode ir a qualquer hora com a certeza de que vai encontrar o que procura. Seja o que for que você procure. E não há nada de mal nisso. Todos faziam o mesmo, a diferença é que alguns disfarçavam, outros eram diretos, insistentes, inconvenientes.
Do balcão, meus olhos rodavam discretamente pelo bar, indo e vindo, procurando alguma coisa que valesse a pena. Observava as mulheres ao redor, como se olha as vitrines do shopping depois que as lojas já fecharam. Apreciamos. Curtimos. Olhamos os preços. E lembramos que as lojas estão fechadas. E vamos embora, são e salvos. Enquanto isso, eu escutava algumas páginas das vidas de dois homens que poderiam até serem meus amigos.
"Seu chope." Chegou. Ela sorriu para mim. Comercialmente de novo. Um longo gole, enquanto a bunda dela parecia sorrir para mim enquanto sua felizarda proprietária se afastava com uma elegância discreta e sensual incomuns.
Comecei a pensar como a vida muda as pessoas. Aqueles dois ao meu lado, pela conversa, estudaram juntos o colégio e a faculdade. Jogaram futebol na escola. Foram a puteiros juntos. Viajaram juntos. Namoraram suas futuras esposas em épocas parecidas. E, por fim, casaram-se com elas. Tiveram filhos, dois cada um. Seus filhos recomeçaram a saga e já brincam juntos. Mas não há exatamente um final feliz nesta história. Eles não são mais tão parecidos. Nem tão amigos. Não é difícil notar naquele papo de bar momentos constrangedores entre velhos camaradas.
"Se você não gosta mais da sua mulher, por que não se separa de uma vez? Vamos sair, aproveitar a vida...", convidou o moderno, com sinceridade.
"Não. Minha família está em primeiro lugar. Não tenho mais idade para ficar saindo toda noite e paquerando as menininhas, as lindinhas da vida", respondeu o segundo, sem tanta sinceridade, com ironia.
"E o que você está fazendo hoje?"
"É diferente. É só de vez em quando. Não é toda noite. Isso é só para quebrar a monotonia do casamento."
Monotonia do casamento, boa desculpa. Parabéns, pensei comigo. O moderno riu, e não disse nada. O amigo não entenderia. Eu entendi e ri por dentro. Era, mais uma vez, a tal da sociedade projetada para casados que fazia outra vítima.
Percebi que eles desconfiaram da minha engasgada. Ficaram me encarando por instantes. Encarei, ao acaso, uma gordinha que estava na minha frente e sorri para disfarçar. Eles continuaram a conversa.
O casado resolveu se vingar.
"Você acha que colocar uma camiseta preta justa, usar esta calça jeans de bicha (era uma calça moderna, desbotada, com alguns pequenos detalhes desfiados, realmente um pouco exagerada para um homem desta idade) e raspar a cabeça vão fazer de você um garotão outra vez? Você já tem 43 anos, cara".
O golpe foi duro. Eu achei. Esperei pela resposta, ansioso, estava ficando divertido.
"Você pensa o que você quiser de mim. Eu estou bem como estou. E você pode ter certeza que só vai me ver com alguém de novo se for sério, se eu estiver apaixonado. Se não, vou estar por aqui tomando minha cerveja".
Perfeito.
Foda-se o que os outros pensam. Ou fazem. Ou fizeram.
Chamei a lindinha e pedi um chope.
"Oi, está sozinho?"
Olhei para o lado, surpreendido. Era a gordinha, encorajada pelo meu sorriso de disfarce. Perfil clichê. Baixa, talvez menos que 1,60 m, pele clara, bochechas rosadas, cabelos castanhos claros, curtos, gordinhas parecem gostar de cabelos curtos, estilo secretária-moderna. Eu não gosto, faz elas parecerem mais redondas. Sua barriga era bem redonda, aliás. Pernas e braços, fofos, gordos. Unhas bem cuidadas, pintadas de bege claro. Claro. Usava uma calça bege escura, de cintura alta. Sinal de bom senso - a cintura alta. Sinal de conservadorismo - leia-se chatice - o bege. Uma camisa branca, larga e comprida, dividida ao meio por um cinto escuro, completava o visual tradicional. Era muito sorridente, simpática, prestativa. Gordinhas costumam ser assim: prestativas.
"Mais ou menos", respondi ao cumprimento.
Ela fez cara de confusa.
"Como assim?"
Sorriso simpático o dela. Confessei que estava sozinho, mas que ia embora logo. Que estava cansado. Que tinha de acordar cedo no dia seguinte.
“Em pleno domingo? ”
Bem observadora ela. Esqueci que era sábado quando inventei aquela mentira.
"Se você quiser, pode sentar com a gente", sugeriu, enquanto apontava para uma mesa logo atrás, com outras três gorduchas sorridentes. Elas pareciam ter ensaiado aquele momento. Sorriram todas ao mesmo tempo quando ela apontou para a mesa. Queriam parecer simpáticas e prestativas. Todas elas. Todas de bege. Toneladas de banhas protegidas por tecidos beges.
Recusei. Ela foi para sua mesa. E ficou o resto da noite me olhando, enquanto devorava uma porção de almôndegas e, logo depois, um prato cheio de pastéis. Olhava, sorria e mastigava. Não necessariamente nesta ordem.
Antes dela iniciar o ataque à sua terceira porção, de batatas fritas, já posicionada à sua frente, paguei minha bebida e fui para casa. Não se pode ganhar sempre.
7:26 PM